O Último Adeus



Desculpem a ausencia dos últimos dias.
Existem momentos na nossa vida que só queremos ficar quietos e esperar que passe mesmo sabendo que isso não acontece. Contudo é preciso seguir o nosso caminho....


  
Para o meu Pai


Para mim o meu pai era o maior do mundo, se bem que eu, com uns simples 3 ou 4 anos, via a vida de forma muito simples. Ele levava-me a passear, íamos ao jardim, ele ia com uns amigos beber uma cerveja e comer uns tremoços no verão à desaparecida Tentadora, ou então, o que eu gostava mais, ir ver os aviões ao aeroporto.


Fui crescendo embalada nos braços do meu pai, tive muito colo e muito mimo e era a menina lá de casa. Tímida e envergonhada brincava pelos cantos da casa ou debaixo da mesa da sala de jantar com as minhas bonecas enquanto aprendia, a ouvir, como é que se fazia no mundo dos adultos. Dessa época lembro-me tão bem do entusiasmo da aproximação do Natal, com o cheiro a filhoses acabadas de fritar a invadir toda a casa, da Missa do Galo quando o Natal era em Lisboa ou de ir a casa dos meus tios quando íamos para a terra. Quando chegava a casa o Menino Jesus já tinha passado por lá e tinha deixado as minhas prendas na chaminé. Ganhei muitas surpresas fantásticas mas que confesso que na altura não entendi muito bem. Pela mão do meu pai ganhei um Mercedes Azul-bebé com telecomando, vários carochas a pilhas que nunca caiam da mesa da sala e, o melhor de tudo, uma pista de comboio, que funcionava a pilhas, apitava e até deitava fumo pela chaminé quando lhe púnhamos um pouco de óleo num cantinho, em cima, escondido mesmo ao lado da chaminé. O que o meu pai nunca me deu foi um carrinho para passear bonecas, apesar de eu o pedir todos os anos, até crescer e desistir dessa ideia.


Nesse tempo a minha vida dividia-se entre a casa na terra próximo da família e a casa em Lisboa também próximo de mais família. Vivíamos quase em comunidade, em minha casa entravam e saiam muitos amigos e familiares, convidados com frequência para festas ou para beber um copinho de vinho, acabado de sair da pipa.


Na terra havia terrenos para cuidar e o meu pai dedicava-se a eles com afinco. Produzia orgulhosamente vinho, fruta e batatas e eu, sempre muito contrariada, ajudava em algumas destas tarefas quando estava de férias.


Guardo na memória a sua energia extraordinária, a sua teimosia, o nunca duvidar de si mesmo, ou se duvidava nunca deixava transparecer. Lembro-me do nosso primeiro carro, um Sinca azul-bebe, igual ao meu mercedes telecomandado e de todos os outros carros comprados depois desse, todos a pronto porque lá em casa não havia prestações para nada. A vida não era fácil embora tenha melhorado bastante nos anos 70 e 80 e os meus pais trabalhavam muito. Lá em casa eramos 6, os meus pais, os meus irmãos, e eu que nasci devido a uma pequena distração, um pouco diferente deles, acho que por causa de uns enormes olhos castanhos, que me davam um ar de quem via e absorvia tudo o que estava há minha volta. Quando cresci o meu mundo mudou dos brinquedos para os livros e o meu pai afastou-se um pouco mais de mim. Como senti a sua falta! Mas era a época da ousadia, de conhecer o mundo, de sair do espaço da casa e da família para o patamar da vida. Aos 21 anos morava sozinha em Lisboa e abria os braços para o mundo para nunca mais os fechar. Afirmei-me na família sabendo que nem sempre era entendida pelas minhas escolhas mas nunca vacilei, afinal tinham-me ensinado em casa os valores da vida e do trabalho.


Entretanto os meus pais iam envelhecendo mas sempre ativos e cheios de energia. O meu pai continuava a não conseguir estar parado e fazia todos os ofícios que o pudessem entreter. Para ele não havia obstáculos e os pequenos contratempos eram desafios para ele ultrapassar.


Vê-los envelhecer não foi fácil. Quando nasceram os meus filhos senti que a vida tinha dado um passo de gigante. Os meus avós tinham desaparecido, eu estava a ocupar o lugar deles na vida e eles o espaço deixado vazio pelos meus avós. Mesmo assim as festas continuaram, agora só na terra, mas sempre com a família, um pátio, carne assada na brasa ou outros petiscos e muito sol e boa disposição. Homem ágil de pensamento e muito bem-disposto o meu pai era uma mesa cheia de histórias, muitas inventadas no momento, mas que fazia todos rir. À sobremesa havia muitas sobremesas, que apreendemos a confecionar com a minha mãe. 


Durante toda a vida a família esteve sempre por perto e os amigos também.


Tomei consciência de que o meu pai não era eterno à talvez 3 anos atrás (o preciosismo do tempo não interessa para nada), quando ele adoeceu terrivelmente. No hospital diziam-nos que não havia nada a fazer e ele dizia-nos que não ia morrer. Até essa altura, apesar das dores e algumas mazelas, o meu pai conduzia e fazia normalmente a sua vida. Ainda ia às fazendas apanhar lenha e já não subia às árvores para apanhar fruta porque aprendeu a lição depois de cair de uma nogueira abaixo tendo faturado a clavícula. Foi nessa altura que eu aprendi a dura lição da mortalidade. O meu pai estava numa cama, com os dias contados pela equipa médica que nos retirou toda a esperança….Contudo ele não desistia e muitas vezes com ar alucinado abria muitos os seus pequenos olhos verdes e quase gritava que não queria morrer porque afinal todos nós estávamos ainda por cá.


No dia em que ele saiu do hospital para o lar eu senti a vida a fugir debaixo dos pés. Poucos dias antes, os dois sozinhos, ele tinha feito a revisão da sua vida comigo, de todas as coisas que tinha feito de errado, de tudo o que se arrependia, dos erros que o torturavam e eu, que nem tinha vivido muitas dessas histórias, renasci com tudo o que aprendi com o meu pai. Senti-me a sua confessora, o seu porto de abrigo nessas horas. Falou-me dos erros na educação dos meus irmãos e de como eu devia fazer com os meus filhos para não errar como ele. Falou-me de tolerância, de educação e de muita atenção. Recordei o mimo que ele me deu, muitas vezes só com um olhar, e senti um enorme respeito pelo meu pai. Todos erramos ao longo da vida, por vezes erramos tanto, agora poucos têm a humildade de reconhecer tudo isso perante a filha mais nova. Sigo cuidadosamente os seus conselhos na educação dos meus filhos, adaptando-os aos tempos modernos, posso não ser a mãe mais carinhosa do mundo mas serei sem dúvida, graças a ele, a mãe mais atenta, mais tolerante e mais disponível do que era antes. Descobri graças ao meu pai que o mais importante não são os bens materiais ou o que mostramos à sociedade. O mais importante é o que fazemos em silêncio pelos nossos filhos, que ser mãe é a maior responsabilidade da vida e que isso significa que temos de saber ceder, conversar e negociar. Aprendi que o carinho e a atenção fazem mais milagres do que um castigo e que o reforço positivo quando fazem bem-feito é mais importante na formação da personalidade do que um castigo quando algum disparate. 


Nessa época o meu pai saiu do hospital para o lar, para morrer. Nesse dia calcei uns ténis e fui correr sozinha, corri na Foz do Arelho até ficar com os pés cheios de bolhas, precisava tanto de aliviar a alma. A minha revolta era enorme, se ele não queria morrer porque é que tinha de partir?


Questionava Deus sobre esta questão quando passava junto ao cemitério. Pousado no muro estava um pequeno pássaro colorido, de cores exóticas, algo impossível de acontecer por ali. Ao me aproximar ele levantou voo sobrevoando o cemitério e eu achei que tinha chegado o fim, chorei e preparei-me para tudo.


Contudo ele não queria partir, não era a sua hora. Agarrado à sua energia vital, contra tudo e todos, aumentou de peso, ganhou apetite e deixou aos poucos a cama. Primeiro de andarilho e depois só de bengala. Para quem tinha 80 e muitos anos foi um grande feito e mais uma lição de vida sobre o poder da nossa vontade para determinar o futuro da nossa existência.


Deixou o lar lucido e muito feliz por voltar a casa, recordo o seu sorriso rasgado e o brilho do seu olhar com alegria. Voltamos a ter lá em casa uma ou outra festa, celebramos em família, no dia da passagem de ano, os seus 60 anos de casados e eu senti o coração quente de felicidade. O meu pai tinha sobrevivido contra ventos e marés e apesar de mais debilitado continuava a ser ele.


Por essa altura a minha mãe começou a dizer-lhe que eu era cada vez mais parecida com a avó Joaquina, figura de forte personalidade que tinha gostos muito à frente da sua época, fazendo a sua vida à sua maneira mas sem nunca ser contestada por ninguém. A Avó Joaquina era o ídolo da família, este era o maior elogio que podiam fazer. O olhar do meu pai, dentro do meu olhar, um misto de orgulho e de amor, fazia-me tremer e enchia-me de orgulho.


Foi por essa altura que o meu pai começou a olhar dentro do meu olhar. Sempre que chegava lá a casa olhava-me cheio de alegria e sempre que me vinha embora dizia-me até sempre com os olhos. Vim embora de casa dos meus pais muitas vezes com os olhos rasos de lágrimas, depois daquele olhar de despedida, de saudade repleto de carinho e orgulho.  


A vida estava a seguir o seu caminho e a eternidade só existe no Céu. Pelo caminho da vida o meu pai converteu-se do ateísmo ao catolicismo, sendo crente no final dos seus dias.


Desta vez eu sabia que era diferente, as dores eram muitas e o desespero também. Já tinha muita dificuldade em se deslocar e pouca vontade de comer e pior de tudo, já não me olhava dentro dos olhos. A esperança transformou-se em fadiga e saturação é por isso que eu sabia que o fim estava próximo. 3 dias antes de ele partir levei os meus filhos a ver o avô. Eu sentia que seria a última vez que se veriam vivos. Fiquei desolada porque durante a visita ele nunca reagiu há minha presença, da minha mãe ou dos meus filhos. O fim estava cada vez mais próximo. Alegra-me um pouco saber que quando íamos todos a sair, contou-me o meu filho mais novo, ele tentou reagir e mexeu-se. Ele sabia que estávamos ali só que já não tinha forças para comandar o corpo.


Nesse dia quando cheguei à casa da Foz tinha dentro de casa um melro, o pássaro preferido do meu pai. O melro, cansado de tanto voar por lá, descansava junto à janela da cozinha. Deixou-se pegar e levar para a rua e depositei-o com todo o cuidado dentro de um vaso, amparado em flores e areia, com um resto de bolachas e água por perto. O fim do pássaro simbolizava o fim da vida do meu pai, a falta de reação era igualmente triste. Fiz-lhe algumas festas e deixei-o a descansar no vaso.


Hoje foi o funeral do meu pai e eu, dentro do bolso do casaco tinha uma fotografia dele que fui acariciando.


Ontem, assim que recebi a notícia, foi para lá. Quando cheguei a minha casa o melro não estava lá. Acredito que o tenha salvado e que depois de uma noite abrigado no vaso, tenha restabelecido algumas energias e tenha voado até ao infinito, alegre novamente porque alcançou a liberdade e a paz. 


 



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